sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O Ferreiro



Era uma vez um ferreiro que, após uma juventude cheia de excessos, resolveu
entregar sua alma a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinidade,
praticou a caridade, mas apesar de toda sua dedicação, nada parecia dar certo
na sua vida. Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas se acumulavam
cada vez mais.
Uma bela tarde, um amigo que o visitara - e que se compadecia de sua situação
difícil - comentou:
É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um
homem temente a Deus, sua vida começou a piorar.
Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença no mundo
espiritual, nada tem melhorado.
O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas
vezes, sem entender o que acontecia em sua vida.
Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e
terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:
Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em
espadas. Você sabe como isto é feito?
Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que fique vermelha.
Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico
golpes até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num
balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor,
enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura.
Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez
apenas não é suficiente.
O ferreiro deu uma longa pausa e continuou:
- Às vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue agüentar esse
tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de
rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada.
Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho que você viu na
entrada de minha ferraria.
Mais uma pausa e o ferreiro concluiu:
Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as
marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a
água que faz sofrer o aço.

Mas a única coisa que peço é:
"MEU DEUS, NÃO DESISTA, ATÉ QUE EU CONSIGA TOMAR A FORMA QUE O SENHOR ESPERA
DE MIM. TENTE DA MANEIRA QUE ACHAR MELHOR, PELO TEMPO QUE QUISER - MAS JAMAIS
ME COLOQUE NO MONTE DE FERRO-VELHO DAS ALMAS".


Por "Lila Xavier"